CHUPA-TINTAS
Ontem faltou luz em casa à noite. A vida moderna tornou ficar algumas horas sem luz algo muito esquisito. Passados os momentos iniciais de procurarmos lanternas e nos localizarmos na escuridão, as crianças logo perguntaram: -O que é que a gente vai fazer sem luz? Não dá para fazer nada! Sem televisão, sem computador, sem telefone...
Sugeri à Luísa que ele lesse para nós. Diante do ponto de interrogação que apareceu no seu rosto, eu disse: -Eu seguro a lanterna e você lê o livro.
E foi o que fizemos. Finalmente ela terminou de nos contar a história de "Um canudinho para dois", livro que ela trouxe da biblioteca da escola, e que é uma continuação de "O chupa-tinta" que ela havia trazido antes. Ambos são de autoria de Eric Sanvoisin e contêm ilustrações de Martin Matje. Contam a história de um vampiro diferente, que se alimentava da tinta dos livros e que, ao morder Odilon, filho do livreiro, transforma-o também num bebedor de tintas. O menino, que até então odiava livros, descobre o encanto deles ao transformar-se num apreciador de uma de suas matérias-primas. Na sua nova condição de vampiro, ele conhece Carmilla, sobrinha do Draculivro e que se transforma em sua namorada.
Ainda virão para a casa, dos mesmos autores, "A cidade dos chupa-tintas" e "O pequeno chupa tinta vermelho".
Confesso que ainda estou tateando no campo da literatura infanto-juvenil. Depois de tantos anos mergulhando no mundo da literatura infantil, consigo reconhecer os bons autores e bons ilustradores já. Mas ainda não conheço muito os livros que andam agradando a Luísa no momento. Precisam ter frases suficientes para que sejam objeto de uma leitura mais demorada e reflexiva, mas ainda precisam ter ilustrações interessantes que complementem a história. A saga dos chupa-tintas atende bem a estes requisitos e traz uma mensagem bastante interessante. Depois de ler o primeiro, Luísa concluiu: -Acho que nós duas somos duas chupa-tintas. Foi capaz de entender bem a mensagem, relacionado a idéia de gostar de ler, de "devorar livros" com a saga de Odilon e Draculivro.
Com estes livros também pude reparar que a velocidade de leitura dela aumentou muito. Eu costumo ficar ao seu lado enquanto ela conta, para corrigir a leitura errada de uma ou outra palavra ou dar a entonação certa em determinada frase. E percebi que meu trabalho nesse sentido diminuiu consideravelmente.
E, para completar, ontem eles descobriram que não é preciso de luz elétrica para divertirem-se. Um bom livro e claridade são suficientes para alguns bons momentos de entretenimento. E eu, morri de rir ao ouvir, antes do início da leitura, a seguinte frase: -Antes de começar a ler, vou resumir o capítulo para você, porque sou muito faladista (leia-se faladeira) e adoro uma platéia de verdade (ela sempre lê sozinha para seus alunos imaginários)!