PAPÉIS CONCILIÁVEIS
Luluca recebeu o convite de uma amiguinha para passar três dias num hotel. Adorou, ajudou a arrumar as malas e tudo. Mas antes de sair caiu num choro sentido. Dizendo que ia sentir muitas saudades do irmão e de mim. O passeio começou ontem e durará até sábado.
Fiquei desconcertada. Porque sei da relação especial que ela tem com o pai e acho que esperava que tais saudades fossem dedicadas a ele primordialmente e ao irmão em seguida. Além disso, sei que sou uma mãe linha dura. Que cobra, briga, dá bronca, pega no pé. Achava que estas duas características juntas me qualificavam para o fim dessa fila das saudades.
Ao mesmo tempo, lá no íntimo fiquei orgulhosa. Não demonstrei. Ao contrário, disse que ela iria se divertir muito com a amiga, que nós fazemos companhia para ela sempre, mas que oportunidades como essa aparecem só de vez em quando e dei a ela o número do meu celular num papelzinho, para que ela pudesse conversar comigo e matar as saudades se quisesse (coisa que, como eu esperava, não aconteceu até o momento).
Meu orgulho não foi algo associado à vaidade por ter passado na frente desta fila. Mas porque sempre achei que o meu compromisso com ela é o de ajudá-la no processo de formação de seu caráter, apontando caminhos que julgo certos e errados e, sobretudo, contendo seu desejo de fazer tudo o que quiser (a dura e difícil tarefa da tal imposição de limites, já que conviver bem em sociedade significa respeitar as regras aceitas pela maioria). Isso para mim sempre foi mais importante do que ser popular. Ser a "mãe chata que diz não" sempre me pareceu um preço justo a pagar dentro deste contexto.
E de repente, dar-se conta de que esse papel também pode ser fonte de amor e predileção me encheu de orgulho. Com a sensação de que o trem está correndo nos trilhos certos.




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