OS TAIS COMBINADOS
Quem tem mais de um filho, sendo eles pequenos o suficiente para não entenderem porque não podem pisar na linha amarela da escada rolante, mas grandes o suficiente para saírem correndo pelos corredores, ou para desmontarem uma vitrine enquanto você paga por alguma mercadoria numa loja, certamente dirá que ir sozinha com eles a um shopping center é sinal claro de insanidade.
Pois ontem eu cometi essa loucura. Precisava comprar presentes para os professores da Luísa e para amiguinhos das crianças que farão aniversário, e não tinha como ir sozinha. Precisava levá-los comigo.
Assim que eles entraram no carro depois da escola, já fui logo dizendo que gostaria muito de ir ao shopping com eles para que eles pudessem me ajudar na escolha dos presentes, mas que, para que isso acontecesse, eu precisava já combinar algumas coisas: nada de andar ou pisar onde não deve nas escadas rolantes, nada de sair correndo na minha frente, nada de fazer bagunça nas lojas e nada de gracinhas. Terminei com a frase: “Combinado? Posso confiar em vocês?”
Eles toparam. Luísa apenas questionou sobre o que significava exatamente "nada de gracinhas". Eles não iam poder fazer nenhuma piada? Dar nenhuma risada?
Uma vez explicado que eu entendia por gracinhas brincadeiras do tipo espião (eles adoram brincar que estão me espionando em lojas de departamento, escondem-se no meio das araras e eu quase enlouqueço procurando a dupla) e coisas do gênero e que risadas e piadas poderiam acontecer desde que não envolvessem correria e sumiço, seguimos para o shopping.
Deu tudo certo. Eles comportaram-se como dois anjos. Foram pacientes, ajudaram na escolha dos presentes e não me desobedeceram uma vez sequer. Ao entrarmos no carro para irmos para a casa perguntaram: - E aí mamãe, cumprimos o combinado?
Elogiei, disse que cumpriram sim o combinado, e pela primeira vez em muito tempo voltei de uma ida ao shopping com as crianças sem a cara de quem acaba de enfrentar um furacão.
Sei que combinados não funcionam sempre. Mas se existe um caminho para obter colaboração dos pequenos acredito que seja esse. Avisar antes o que vai acontecer, como você espera que eles se comportem e o quais serão as conseqüências do não cumprimento do trato.
E é claro que consistência é fundamental. À noite Rodrigo pediu para que eu lesse a história de um livrinho para ele. Eu disse que já estava tarde. Que como nós fomos ao shopping, naquela noite não poderia ter história. Não daria tempo. Que na noite seguinte também não contaria porque teríamos uma festa à noite e chegaríamos mais tarde novamente. Mas que no dia após a festa eu contaria. Ele olhou para mim e disse: -Posso confiar em você?
Pode sim filhote. Vou cumprir o combinado.




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