MENINA MOÇA

 

Ver a Luísa crescer tem sido uma experiência deliciosa e surpreendente.

Deliciosa porque me faz relembrar em como foi a minha fase de transição. A fase em que ainda adoramos ser e brincar como meninas, mas ao mesmo tempo já nos sentimos mais velhas, quase mulheres. Já reparamos nos meninos, já ficamos mais vaidosas. Uma fase meio nem lá e nem cá. De muitas descobertas, de corpo mudando. De sentimentos à flor da pele. É gostoso ouvir novamente histórias sobre um olhar de um menino, um bilhetinho anônimo de um admirador e o estranhamento e ao mesmo tempo o friozinho na barriga que isso nos causa.

Surpreendente porque estou me descobrindo cúmplice, confidente e amiga da minha filha como pensei que jamais seria. Ela não é uma pessoa fácil. Nem eu. Ambas gostamos de argumentar, falar e "refalar" (o neologismo inventado por ela que melhor a define, inclusive). Para ela não existe o "porque não". Ela precisa ser convencida de que a regra faz sentido, é justa, é coerente. Para mim não existe o deixar para lá. O resultado dessa combinação foram incontáveis e desgastantes embates. Em algumas fases eles eram diários e me fizeram crer que ela sempre me veria como uma adversária, que passaríamos muitos anos às turras.

Mas a maturidade tem nos transformado. Passei a selecionar melhor os embates. Ela passou a ouvir mais e aceitar mais facilmente meus argumentos. Esse dia a dia mais fácil tem aberto um canal imenso para o diálogo entre mãe e filha. Ela conta do bilhetinho anônimo e me pede conselhos sobre como agir. Pergunta se eu acho que já está na hora dela namorar e ela própria responde que ainda gosta de ser criança, que acha que ainda não está na hora, mas que não deixará de me contar quando achar que essa hora chegou. Que confia em mim e sente vontade de conversar comigo.

Claro que não tenho nenhuma esperança de ser sua eterna confidente. Nem acho que esse seja o papel da mãe. Mas vê-la com vontade de me contar coisas pessoais, falar de seus sentimentos e me pedir conselhos, fez com que eu me sentisse muito feliz. É como se eu ouvisse as frases: "eu sei, você me dá broncas e pega no meu pé, mas isso tem a ver com educar. Não me faz gostar nem um pouquinho menos de você. Ao contrário, faz com que eu sinta que sou amada e que tenho alguém em quem posso confiar". Tomara que a mensagem subliminar seja essa mesmo!